quinta-feira, 2 de julho de 2009

Silêncio

Esmurrou a parede até que suas mãos estivessem completamente ensangüentadas. Como já tinha se cansado de gritar e queria fazer ainda mais barulho dirigiu-se até e mesinha do computador, arrancou o monitor do suporte e o arremessou contra a parede com toda a força que ainda lhe restava.
Após tanto escândalo sentou-se na cama desarrumada ofegante e respirou fundo até conseguir ficar um pouco mais calmo, então decidiu dormir. Eis que a campainha toca:
-Senhor, esse é o seu filho?
-Sim, seu guarda – respondeu olhando assustado para a cara do pobre menino de 13 anos que mal conseguiu olhar o pai nos olhos.
-Pegamos ele com um baseado, era do bom e nós até demos uma tragadinha, mas isso não justifica o fato de que seu filho estava portando drogas. O senhor vai ter que liberar a gaita pra mim e meus comparsa aqui.
-Sim, seu guarda, entendo, está aqui, - Tirou uma nota de 100 reais do bolso e deu ao policial – espero que não aconteça de novo. Vamos, filho.
Os policiais foram embora e deixaram pai e filho a sós:
-Pai, eu não estava com..
-Eu sei filho. – Interrompe o pai bruscamente – Esses guardinhas filhas da puta só querem extorquir o que a gente dá duro pra conseguir. Mas não se aborreça mais com isso, tá?
O menino saiu calado e se assustou ao entrar no quarto e ver a parede ensangüentada e o monitor do computador destruído ao lado da cama, voltou à sala onde o pai descansava no sofá e indagou:
-O que houve, pai? Por que suas mãos estão sangrando, a parede do quarto está suja e o computador quebrado?
-Por nada, filho...
-E cadê a mãe?
-Sua mãe foi embora e seu pai está desempregado.
-E agora?!
-Se você não se importar em ter um pai corno, a gente pode ir pra outro lugar, essa porcaria de computador nunca foi útil, eu deveria ter vendido antes. E sua mãe é uma vaca, uma perfeita vadia. Cê deveria ter vergonha de ter um pai corno e uma mãe vadia.
-Não fala assim, eu gosto de você, pai.
-Fico contente por isso, mas vamos lá, pegue suas coisas e vamos embora, não agüento mais ficar nessa merda de lugar, vamos, anda logo.
O menino se retirou e ao anoitecer ouviu-se apenas o silêncio continuo de um lugar abandonado e ninguém mais morou ali. Com o tempo os cupins e a chuva consumiram o resto do barraco e nunca mais outra coisa foi construída no mesmo lugar.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Ponto de Retorno

Vivemos em dias temerosos e talvez nunca possamos nesse plano material viver uma realidade diferente, mas se algum dia o céu obscurecido por anos de degradação voltasse a brilhar com a luz do sol sobrariam traços de poluição sobre as nuvens que algum dia foram cinzentas como o concreto envelhecido de obras não concluídas.
Porque por maiores que fossem as mudanças, sobrariam ainda os buracos dos pregos arrancados da porta com extremo esforço. Por buracos tão profundos entrariam os últimos vestígios de luzes pálidas e distorcidas, iluminando assim os resíduos do sangue mortal que foi limpo das calçadas e das lágrimas que foram enxugadas com pano áspero e cortante.
Embora todos os edifícios reconstruídos de forma bela (tão bela que ultrapassariam as das maravilhas do mundo) pudessem ser freqüentados por todos, os olhares que algum dia foram preconceituosos e maliciosos transmitiriam uma enorme sensação de tristeza profunda e arrependimento compensado com justiça tardia, e nem todos se sentiriam completamente iguais.
Todo o lixo das ruas, já muito fétido e pútrido, seria enviado ao espaço e ainda haveria a lembrança do terrível odor de chorume invadindo casas e perturbando pessoas nem sempre de bem, e toda essa imundície doentia poderia algum dia retornar a existir puramente para incomodar. Pois haveria ainda um proliferador de doenças ambicioso e egoísta que quisesse restabelecer “ordem”.
Mas toodos seriam devidamente alimentados em banquetes realizados em mesas redondas com suportes de ouro e toalhas bordadas com flores e pássaros. As taças cheias nunca se esvaziariam e todos poderiam sempre retornar ao mesmo ponto para beber novamente o mesmo vinho doce e suave, mas ainda assim haveriam pensamentos voltados ao horizonte lembrando-se dos dias em que não havia mesas, toalhas e vinho para todos.
Mas embora sobrasse crucifixos em lugares hediondos, o mundo seria feliz e a paz duradoura, quem sabe eterna.